Terça-feira, 11 de Junho de 2013

A fronteira de Cavaco

 

O Presidente da República decidiu 'acabar' com as comemorações do 10 de Junho e fez, por isso, tudo o que pôde para esvaziar o sentido político de um discurso que esteve completamente fora das preocupações dos portugueses. Preferiu a auto-justificação, não só da sua magistratura em Belém como da sua actuação como primeiro-ministro. Sobraram os avisos, a 'fronteira', para o ministro da Defesa.

Para quem esperava uma intervenção do 10 de Junho na linha da intervenção do 25 de Abril - bem ou mal, assumiu uma oposição clara, e apontou caminhos - Cavaco Silva desiludiu. O Presidente da República fez um discurso sectorial no dia de Camões e das Comunidades. Estranho? Nem por isso, se se tiver em conta que Cavaco está acantonado. Aproveitou para diminuir as tensões políticas em torno da sua acção, não aumentou as crispações dos partidos da Oposição, mas isso correspondeu, na prática, a tornar este dia irrelevante para a história política. Ou quase.

O Presidente preocupou-se, primeiro, em justificar as negociações que conduziu, durante anos, com a Comissão Europeia em torno da agricultura. E disse meias-verdades, sublinhou o que está a suceder na transformação de um sector, muito recente, diga-se de passagem, relevou estatísticas de produtividade, as que melhor compõem o quadro, mas esqueceu-se de fazer as contas às centenas de milhões que foram investidos no sector, à eficiência destes investimentos. Cavaco preocupou-se, depois, em justificar a sua acção política, e recusou ser um actor, que já é, mesmo que não o pretenda, entre o Governo e a Oposição. Mas, também aqui, esqueceu-se de acrescentar que nem sempre foi assim, que às vezes entendeu ser um actor, e participar. Como na queda do Governo de Sócrates. E é isto.

A única referência que fica deste 10 de Junho de 2013 - curiosamente um dia que mereceu a visita da Presidente brasileira, Dilma Rousseff - foi no discurso da manhã, sobre as Forças Armadas. Poderá não ter passado de um alerta, mas a verdade é que, à semelhança de Paulo Portas, que traçou uma fronteira na taxa social única dos pensionistas, Cavaco traçou outra fronteira: não deixará que o Governo toque nas Forças Armadas. Quando não se sabe o que aí vem na reforma do Estado neste sector, o Presidente, e comandante supremo das Forças Armadas, traçou uma fronteira, mais uma que Pedro Passos Coelho terá de ter em conta.

 

PS: Dilma Rousseff deu o sinal político público que ainda não tinha dado, visitou Portugal depois do trabalho de casa do ministro Paulo Portas, particularmente por causa do apoio à eleição de um brasileiro para director-geral da OMC. Mas a agenda verdadeira, a que não constou de nenhuma declaração oficial nem de nenhum documento, ganha peso, ironicamente, no Dia de Portugal. Dilma vai agora esperar pela disponibilidade do Governo português para vender alguma das empresas que vão ser privatizadas a grupos brasileiros. É o caso dos CTT ou da TAP, as empresas que se seguem. Seriam, em ambos os casos, boas soluções para dar dimensão e futuro, mas convém que as propostas que cheguem a Lisboa não se fundamentam, apenas, na ideia de nacionalidade. Ou, como dizia António José Seguro, que também se rendeu a Dilma, no princípio de que Portugal está disponível a vender empresas a um país "que não é bem estrangeiro".

 

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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