Segunda-feira, 24 de Junho de 2013

O Inverno brasileiro

 

A Primavera árabe chegou tarde ao Brasil, e por outros motivos, mas chegou, e o Inverno brasileiro é não só uma resposta às expectativas criadas na última década, e que estão por cumprir, é também um barómetro que deve servir para os empresários e gestores portugueses que, talvez ingenuamente, acreditam que a (re)descoberta do Brasil seria a resposta para todos os problemas.

As manifestações no Brasil eclodiram por causa de um aumento de 20 centavos no bilhete de autocarro, mas só aparentemente. Foi um pretexto para protestar, para protestar contra tudo, sobretudo contra expectativas frustradas de uma geração que não se contenta com uma casa ou com móveis para a equipar, que tem uma consciência política, e quer participar. Contra a corrupção, contra os investimentos públicos desnecessários, ironicamente, contra a construção de estádios de futebol no país do futebol. Neste caso, com um sentido bem mais apurado do que os portugueses, que protestaram contra os estádios só depois do evento que os justificou, o euro2004, e quando tantos estão sem utilização possível e a postos para serem destruídos.

O Brasil, visto de Lisboa, é o país desenvolvido, de todas as oportunidades, com crescimento económico, com uma população que sobe na escada social e uma diminuição das assimetrias económicas e sociais. É uma parte, muito relevante, da verdade, mas não é a única, como seria de esperar num país de 200 milhões de habitantes e que parte de uma base muito baixa. Só isso, e a ignorância em Portugal da realidade do Brasil, pode explicar as comparações entre os dois países, as manifestações de indignação do lado de lá do Atlântico e a surpresa por não se multiplicarem também deste lado, mesmo com esta recessão e esta crise.

O Brasil, visto de São Paulo ou do Rio de Janeiro, é um país emergente, está a fazer um caminho para integrar o clube dos mais ricos e desenvolvidos, tem petróleo, e outros recursos naturais, e tem população, muita. É por isso mesmo que justifica tanta atenção de investidores de todo o mundo. Também dos portugueses. A língua comum é uma vantagem competitiva, mas apenas e se fizermos o trabalho de casa, falar português não chega, como perceberam, por exemplo, empresários como Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos, que falharam no Brasil. E os protestos das últimas semanas revelam que as exigências, relativamente ao investimento estrangeiro, como é o português, vão aumentar. E bem. Só temos a ganhar.

 

 PS: Aí está uma notícia surpreendente, o homem que morde o cão. A 'troika' dá sinais de fadiga de austeridade, as acusações mútuas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Comissão Europeia fazem temer pela estabilidade dos programas de ajustamento - e do financiamento - dos países intervencionados. Quando se suspeitava que os governos não teriam força para levar estes memorandos até ao fim, nem com sucessivas renegociações de metas de défice, e nem é preciso citar o caso português como exemplo, a 'troika' desfaz-se e poderá até sucumbir à austeridade antes dos governos dos respectivos países. Agora, é preciso ajudar a 'troika' a acabar este trabalho com dignidade. Aí está uma oportunidade, única, para Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:08
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