Quarta-feira, 3 de Julho de 2013

Um regresso ao passado

 

Os portugueses vão regressar, nos próximos dias, ao pior dos pesadelos, a um passado com pouco mais de dois anos, quando o Governo de José Sócrates pediu a ajuda externa. A crise política que se adivinhava há meses, e que foi tornada pública nas últimas 48 horas, atingiu proporções inimagináveis, de irresponsabilidade e da pior táctica partidária. Quem queria eleições antecipadas, vai ver esse desejo cumprido, só faltará agora saber a que preço.

Pedro Passos Coelho fez uma intervenção ontem à noite que é, mais uma, peça de encenação política, a juntar à desleal carta de Vítor Gaspar e ao oportunístico comunicado de Paulo Portas. Mas o primeiro-ministro disse uma verdade: as eleições antecipadas corresponderão a deitar fora o esforço que foi pedido aos portugueses e, no meio desta pequena política, porque é disso que se trata, há um bem maior que o Governo, os partidos que o suportam e os seus líderes deveria proteger e que deitaram fora, o país.

Agora, depois destes episódios - que deveriam ter sido evitados - só há uma saída, a pior, no pior momento, mas a única possível, a de garantir que este Governo acaba o mandato com dignidade. E não é por causa do Governo, é por causa do país e do que está, e ficou, em causa.

Até há 48 horas, Portugal estava a fazer um progressivo regresso aos mercados, assistido é certo, mas não menos importante. Para chegar ao programa cautelas, no fundo, uma rede de segurança que suportaria a recuperação da independência financeira do pais. Agora, o programa cautelar provavelmente já não chegará, e o que está em causa é mesmo a necessidade de mais financiamento para garantir as necessidades do país, um novo cheque, com exigências mais duras do que aquelas que vivemos nos últimos dois anos. Este ano, estão salvaguardadas, mas não estão em 2014, ano em que o Estado precisará de garantir um financiamento superior a 20 mil milhões de euros. Neste caos, quem nos empresta, e a que preço? Ora, com a Grécia a falhar novamente os seus compromissos, com a Alemanha a caminho de eleições, é fácil de imaginar o que os nossos credores, já sem o FMI, nos vão exigir.

A história destes últimos dois dias está por contar, há versões contraditórias, um lavar de roupa suja que torna a convivência de Passos Coelho e Paulo Portas impossível. Vamos precisar de tempo, e de informação, para reconstruir o que se passou. Mas há um dado que terá sido decisivo neste desfecho triste, a carta de Vítor Gaspar, uma versão de uma história em que o próprio é protagonista. Terá sido, provavelmente, o espoletar da decisão de Paulo Portas. Ironicamente, foi Gaspar, o ministro que Portas não queria ver, a dar a última razão para a sua demissão e para a consequente e inevitável falência do Governo.

O melhor que o Governo poderia fazer seria levar o país até ao fim do programa de ajustamento e sonhar com um raio de sol que animasse a economia. Passos Coelho percebeu isso e assumiu a posição de um primeiro-ministro sitiado, que governa com três ou quatro pessoas, o que explica a escolha de Maria Luís Albuquerque. Foi um erro, mais um, para responder aos vaticínios de Gaspar sobre a incapacidade de o Governo fazer alguma reforma do Estado. Paulo Portas, claro, não tinha por isso mesmo qualquer incentivo para permanecer no Governo. E sai, mas sai mal. Como Passos Coelho e Vítor Gaspar.

Sobra o Presidente da República que tem, aqui, de mão beijada, a oportunidade para recuperar o protagonista. De que forma? Um calendário político claro, com eleições, para garantir a negociação de um novo acordo com a Comissão Europeia e o BCE, assinado pelos três maiores partidos do arco de Governo. Para recomeçar, quase, do zero.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:50
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