Quarta-feira, 17 de Julho de 2013

O que é que o acordo tem?

Ao 17º dia de crise política, a 'troika' partidária que está a negociar o acordo de salvação nacional imposto pelo Presidente da República dá sinais de que o que os separa e que parecia intransponível pode ser, afinal, ultrapassado. Mas este acordo só servirá para alguma coisa se passar dos princípios e fixar objectivos concretos, por exemplo, um tecto para a despesa pública, logo, mais austeridade em linguagem popular.
Em política, o que é mentira hoje pode ser verdade amanhã. Literalmente. Depois de Paulo Portas considerar a sua decisão de sair do Governo irrevogável, António José Seguro considera politicamente compatível negociar de manhã com o PSD e CDS - e Governo - um entendimento que servirá de base à renegociação do acordo com a 'troika' e, à tarde, sentar-se à mesma mesa com os dirigente do Bloco de Esquerda para tentar um acordo que tem em pano de fundo deixar de pagar as dívidas que o país contraiu.
Claro, Seguro está entre a espada, de Sócrates e Soares, e a parede, de Cavaco. Está a tentar o equilíbrio possível para não sair como a primeira vítima desta (não) decisão do Presidente da República, que, feita desta forma, só pode dar maus resultados.
Ninguém questiona a necessidade de renovação dos votos de casamento dos três maiores partidos do arco do Governo em torno dos compromissos internacionais. Depois do acordo assinado com a 'troika' e do Tratado Orçamental, que tem objectivos de redução do défice estrutural e da dívida pública, o país chegou a um impasse, sim, por responsabilidade do próprio Governo, como bem explicou Vítor Gaspar na hora de saída. O Governo definiu as suas prioridades em função do interesse político e partidário, mas esse calendário acabou por voltar-se contra si. A reforma do Estado, agora, é uma agenda impossível. Gaspar saiu, Portas queria aproveitar a boleia, e Cavaco fez o resto. Sobrou Passos Coelho, que manteve a presença de espírito, e deixou de lado os estados de alma, para evitar a queda no precipício.
O problema é que o caminho de Cavaco é de difícil ou impossível solução. Um acordo de princípio não chega, nem sequer para convencer Cavaco, quanto mais os investidores, que começam a mostrar desconfiança sobre o futuro do país a curto/médio prazo, medida pela evolução dos juros implícitos na dívida pública a dois e cinco anos.
A 'troika' partidária promete 'papéis escritos' para a reunião de hoje, que até pode ser a última. Ora, este acordo só produzirá efeitos se incorporar compromissos muito concretos de evolução da despesa nominal. Eduardo Catroga, na entrevista ao Económico e Antena 1, refere que a despesa total primária, isto é, sem juros, tem de cair de cerca de 80 mil milhões para 72 mil milhões de euros por ano, portanto, bem mais do que os 4,7 mil milhões anunciados - e não concretizados - pelo Governo. Sim, há margem para discutir com a 'troika' uma renegociação dos prazos de redução do défice público, mas pouca. E depende, precisamente, deste acordo.
O caminho que se colocava ao país para escapar a um segundo resgate já era estreito, como fica bem explícito do boletim de Verão do Banco de Portugal. E os riscos aumentaram muito com esta crise, que Cavaco prolongou, sem dar sinais de ter um plano B ou um plano C. Agora, não há retorno possível, nem passos atrás, só passos em frente, para cair no abismo ou passar por cima.
publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds