Quinta-feira, 18 de Julho de 2013

Um acordo, ao 18º dia?

Portugal pagou ontem o juro mais elevado desde Outubro de 2012 na emissão de Bilhetes de Tesouro (BT) a 12 meses, ou seja, os investidores estão a dizer-nos duas coisas: desconfiam do que aí vem e, pior, recuámos mais de dez meses no trabalho que já foi feito por causa de uma crise política que entra hoje no 18º dia.
Vale a pena fazer um pouco de história. O que sucedeu em Portugal desde Outubro do ano passado? Em primeiro lugar, o Governo foi obrigado a renegociar as metas de défice da 'troika', depois de um orçamento de cortes temporários e aumento de impostos que falhou os objectivos. Vítor Gaspar anunciou ao país, no dia 15 de Outubro, "um enorme aumento de impostos", um verdadeiro confisco legalizado por lei do Parlamento. Esta obsessão - e a recusa em perceber que o acordo com a 'troika' estava esgotado - permitiu manter, a custo, uma trajectória de credibilização externa do país e, por causa disso, o regresso aos mercados, de forma assistida, com emissões a cinco e dez anos. Logo a seguir, a anunciada reforma do Estado, ou melhor, o corte de despesa estrutural de 4,7 mil milhões de euros, que ainda não saiu do papel, mas serviu para assustar, e motivou mais duas greves gerais.
Bastaram pouco mais de duas semanas de crise para os credores - aqueles que poderão resolver uma coisa muito prosaica que é a necessidade de financiamento do país no pós-'troika' - mostrarem que tudo isto foi (quase) em vão. E 'isto' tem responsáveis, com nome e apelido.
O método de Cavaco Silva serviu apenas, até agora, para agravar uma crise política com consequências presentes e futuras imprevisíveis. Há muitas dúvidas e poucas certezas. Depois de várias reuniões - com ministros e Presidente à mesa - há sinais, mas apenas sinais, de que os partidos do Governo e o PS podem entender-se e, agora, há uma espécie de tentativa de limitar os danos do ponto de vista mediático. Quem vai aparecer, perante o seu próprio partido, e o seu eleitorado, a ceder menos.
A avaliação vai ser muito fácil de fazer. Depois de Cavaco Silva ter 'entalado' os três líderes, responsabilizando-os pelo que suceder, há uma medida para perceber se há um acordo de salvação nacional de facto e de direito, isto é, se resiste à primeira votação no Parlamento. O Governo anunciou cortes de 4,7 mil milhões de euros para o período 2013/2015, negociados com a 'troika', como condição para levar até ao fim o acordo, e o país até ao programa cautelar.
A ideia de que o Governo, este ou outro, podem dispensar cortes no Estado nos próximos três anos é apenas pueril ou, pior, demagógica. António José Seguro já não pode alinhar na ideia de que é contra a austeridade, porque vai precisar da 'troika', desta ou de outra quando e se chegar ao poder. Dito isto, se conseguir assegurar um compromisso do Governo - para o qual contará seguramente com o apoio do CDS - para reduzir este plano de cortes, e ainda por cima, garantir eleições dentro de um ano, poderá sempre justificar o acordo, em nome do país. Pedro Passos Coelho, claro, ganha um ano de vida política com outra estabilidade, em nome do país.
Ora, o Presidente assumiu um risco enorme, para si, mas sobretudo para o país. Porque, agora, qualquer coisa que seja apenas um acordo de princípio não vai chegar para satisfazer as exigências de Cavaco Silva, mas, sobretudo, da 'troika'. E, nesse momento, será necessário voltar a ler com atenção os primeiros 12 minutos da intervenção de Cavaco Silva para nos prepararmos para o pior, que nos espera.
publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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