Quinta-feira, 25 de Julho de 2013

A cadeira do poder está onde se senta Passos Coelho

Pedro Passos Coelho parece ter-se transformado em primeiro-ministro sombra do vice-primeiro-ministro Paulo Portas, o PSD parece ter sido engolido pelo CDS, a relação de poder dentro da coligação parece ter-se invertido, mas nem tudo o que parece é.
Na ressaca da crise política que afectou a credibilidade e fiabilidade do Governo, Pedro Passos Coelho parece ter cedido em toda a linha a um Paulo Portas que tinha decidido sair, irrevogavelmente. Quando o primeiro-ministro põe nas mãos do líder do partido mais pequeno da coligação a tutela das áreas económicas, a primeira reacção foi a de que o crime compensou. Foi Portas a abrir publicamente uma ruptura na coligação, que Cavaco, como o mesmo estado de alma, decidiu prolongar por quase 15 dias. Mas Passos Coelho foi mais longe e, além de promover o líder do CDS a vice-primeiro-ministro, entregou a pasta da Economia a Pires de Lima e reforçou o peso de Pedro Mota Soares. Além de manter a agricultura - um sector na moda - nas mãos de Assunção Cristas.
Afinal, se a tomada de poder do CDS parece tão evidente, se o Governo passa a ser de coligação CDS/PSD, porque é que os militantes social-democratas - as suas elites e as suas bases - não se revoltam contra um líder que, aparentemente, desbarata o peso de 38,6% de votos nas legislativas? Os partidos, que têm extinto de sobrevivência para além dos líderes, não aceitam tudo, especialmente se isso puser em causa o que são as redes de interesses e de acesso ao poder.
Há, claro, outra alternativa. Se há alguma lição que se retira desta crise é a de que Pedro Passos Coelho não deve ser subestimado. Portas, aliás, já percebeu isso. O novo vice-primeiro-ministro tem uma segunda oportunidade precisamente porque Passos Coelho teve o estado de alma para não aceitar o seu pedido de demissão, primeiro, e para resistir à não-decisão de Cavaco Silva, depois.
O CDS tem obviamente mais poder executivo, tem as pastas económicas precisamente no momento em que o próprio primeiro-ministro garante que é preciso um novo ciclo político… com mais economia. E a condução da reforma do Estado. Mas Passos Coelho reserva para si, e para Maria Luís Albuquerque, o essencial das decisões europeias, nos conselhos europeus e Ecofin, apesar das competências delegadas de Paulo Portas na relação com a 'troika'.
O primeiro-ministro é um pragmático, percebeu que tinha um preço elevado a pagar por um pecado original, que foi não ter dado o estatuto de número dois do Governo a Portas desde o primeiro dia. E parece ter passado do oito ao oitenta, da exclusão do CDS do núcleo duro político de decisão à mudança de centro de poder.
No estado a que a coligação chegou, esta nova orgânica - a que permite, no fundo, o reforço de poder do CDS e de Portas - é uma condição essencial para a estabilidade política e, mais do que isso, essencial, mas não suficiente, para garantir que o Governo e o país escapam a um segundo pedido de resgate, qualquer que venha a ser o seu modelo. O acesso ao programa cautelar, o regresso aos mercados, mesmo assistido, é a medida de sucesso do Executivo e de Passos Coelho.
Há uma de duas saídas possíveis para este Governo, portanto. Se falhar, Paulo Portas não poderá voltar a dizer que aceitou as medidas tomadas, mas não concordou com elas. A partir de hoje, a política económica é, também, sua. Se o Governo garantir a saída da 'troika', Portas recuperará do seu estado de condicionalidade, mas Pedro Passos Coelho e o PSD terão mais condições para capitalizar politicamente esse sucesso.
Paulo Portas e o CDS tomaram conta da política económica, é certo, podem até ter a ilusão de que tomaram conta do Governo, mas com uma contrapartida, um risco total, um tudo ou nada para o futuro político, do partido e do seu líder. E a cadeira do poder, essa, estará sempre onde se senta o primeiro-ministro.
publicado por concorrenciaperfeita às 07:02
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds