Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

Um economista brilhante sem jeito para a política

António Borges desapareceu ontem, aos 63 anos, e, com isso, desapareceu o principal ideólogo económico e político deste Governo, mas seria injusto reduzir o papel e a história deste economista ao que se viu e não se viu nos últimos dois anos. A história pública de António Borges não começou agora, com Pedro Passos Coelho e um dos seus mais fiéis, Vítor Gaspar, vem de longe, sempre frontal, e polémico. Foi, no entanto, neste contexto que esteve mais perto de exercer funções governativas, esteve mais próximo de influenciar directamente as políticas públicas e a reforma do Estado. Não chegou a ser formalmente ministro, foi, antes, um 12º ministro sem pasta, com responsabilidades directas e influência em áreas sensíveis, como as privatizações ou as parcerias público-privadas, mas as suas competências e qualificações académicas foram, sempre, inversamente proporcionais às suas qualidades políticas.
A verdade é que António Borges foi, sempre, um homem independente. As suas opções profissionais ao longo dos anos mostram que foi tomando, sempre, os caminhos mais difíceis e menos óbvios. Quando saiu de vice-governador do Banco de Portugal em ruptura com Braga de Macedo, em 1993, ou quando, mais recentemente, saiu do FMI em clivagem com Lagarde. E, ao contrário do que sugere a sua visão liberal do País e do mundo, não era propriamente uma figura querida do sistema financeiro português. Porque tinha a ambição - que não escondia em privado - de reformar a economia e o Estado, e considerava que a banca era um obstáculo a essa democratização da economia. Queria mudar, e mandar, os bancos que eram detidos por outros, através da mão do Estado. Também tinha as suas contradições. Ouvia pouco, tinha sempre a 'sua' razão.
Borges era reconhecido, por quase todos, como um académico brilhante, e chegou a ser um D. Sebastião da política portuguesa, numa fase em que se sonhava com o não-político que fizesse a reforma do País que os políticos não tinham conseguido fazer. Mas acabou por transformar-se numa figura incómoda para o próprio Governo e para o primeiro-ministro, que continuava a ouvi-lo, mas em privado. A última aparição relevante, e que causou um enorme embaraço ao primeiro-ministro, foi a entrevista em que defendeu a concessão de um dos canais da RTP.
O economista que conseguiu pôr o Insead na liderança das escolas de negócio internacionais, e antecipar movimentos que as escolas norte-americanas copiaram anos mais tarde, cometeu um pecado original quando quis participar na definição das políticas económicas do País sem entrar no Governo. Preferiu, legitimamente, estar com um pé dentro e outro fora, mas no contexto em que o País estava em 2011 isso não era possível. À medida que aparecia a defender as suas posições - ou as do Governo - a sua imagem e credibilidade degradavam-se, à velocidade de declarações e afirmações tão verdadeiras como incómodas, algumas brutais e que poderiam ser feitas por um economista, mas não por um consultor do Governo.
A partir de um certo momento - também porque a relação financeira de António Borges com o Governo não era propriamente transparente e ainda hoje não se sabe qual era o teor do seu contrato - qualquer que fosse a sua opinião, da economia, do Estado, dos negócios, das empresas, servia para o atacar do ponto de vista pessoal. Talvez tenha sido o cansaço que já era público e notório, os efeitos de uma doença brutal que Borges viveu com reserva, coragem e sem pedir condescendência, a explicar não ter resistido a chamar de "ignorantes" os que não perceberam a proposta de redução da Taxa Social Única para as empresas, que patrocinou, e que quase fez cair o Governo.
António Borges nunca se deu bem com a política, foi sempre um 'estranho, às vezes parecia não perceber o País, mas uma coisa os seus adversários e mesmo inimigos, mesmo os que nunca quiseram discutir as suas propostas, apenas atacá-lo pessoalmente, têm de reconhecer, e fazer-lhe justiça: tinha uma agenda económica, política e social do País, nunca a escondeu, mais, defendeu-a de forma transparente até ao último dia.
publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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