Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

A nova 'gaiola dourada'

 

A 'Gaiola Dourada' - uma história sobre a emigração portuguesa em França realizado por um emigrante de segunda geração, Ruben Alves - foi um dos fenómenos do Verão, e não foi apenas cinematográfico, foi político e social. Especialmente porque aparece quando a emigração portuguesa volta a ser uma realidade, outra vez por necessidade, mas, desta vez, provavelmente sem um final tão feliz.

Os portugueses, é preciso dizê-lo, sempre conviveram mal com a emigração, tinham até vergonha dos que saíram do País na década de 60 e, depois, quando as condições económicas o permitiram, começaram a regressar, primeiro nas férias e, em muitos casos, quando chegava a idade de reforma, definitivamente. Para casas com uma estética duvidosa para uma geração que apurou um gosto alimentado por uma integração europeia e um cosmopolitismo artificial e até provinciano. Os portugueses sempre preferiram os estrangeiros 'pé-de-chinelo' nos seus países de origem, mas a falar inglês, aos portugueses que aprenderam o francês nas obras ou nas fábricas ou como domésticas. 

A 'Gaiola Dourada' tem, desde logo, a grande virtude de contribuir para os portugueses aceitarem o que são os portugueses, para terem orgulho numa geração que foi obrigada a sair do País e que, mesmo sem qualificações académicas, era de excelência, no trabalho, na dignidade, na honestidade, e que, apesar de ter sido forçada a sair, nunca se zangou com Portugal, defendendo-o onde quer que estivesse. E que era reconhecida pelos cidadãos desses países de destino.

O que se vê na 'Gaiola Dourada', o filme, e na nova 'gaiola dourada', é que a responsabilidade pelo falhanço do País é das elites, das que não foram obrigadas a emigrar, das que tinham o poder político, económico e social.

A emigração de hoje também é, em larga medida, forçada pelas circunstâncias, por uma crise económica em resultado de erros de políticas públicas ao longo dos últimos trinta anos. A nova emigração é muito mais qualificada e, como a de 60, de excelência. Mas, nesta nova 'gaiola dourada', há também uma grande revolta, uma frustração, legítima, pela ausência de oportunidades num País que, além disso, investiu e muito na sua qualificação e formação académica.

A 'gaiola dourada' deste século não só está zangada com o País como está progressivamente a integrar-se nas comunidades dos países de destino, e cada vez mais longe de Portugal. Não quer regressar, nem construir casas, mesmo de gosto duvidoso aos olhos desta geração das redes sociais, nem reenviar poupanças que, durante décadas, foram fontes de financiamento externo da nossa economia.

Ao contrário do filme de Ruben Alves, desta vez a realidade não vai permitir um final feliz, vai perder-se uma geração que poderia e deveria contribuir para o futuro do País.

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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