Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

O professor e o ministro

O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, tem uma visão instrumental e utilitária das empresas privadas onde o Estado tem  participação accionista, que esconde quando dá jeito ‘vender’ o País aos investidores internacionais. Só assim se compreende o discurso populista e demagógico em torno do pagamento extraordinário de dividendos aos accionistas da PT já em 2010 depois da operação extraordinária de venda da Vivo.

O Diário Económico, que fique claro, é detido a 100% por um accionista da PT, a Ongoing, mas o que está aqui em causa são princípios de gestão e de racionalidade económica que o professor Teixeira dos Santos deveria ensinar ao ministro Teixeira dos Santos.

Teixeira dos Santos, o ministro, afirmou ontem, surpreendido com uma informação que o mercado já incorporara há meses, que se a PT pagasse dividendos extraordinários ainda em 2010, poderá passar a ideia de que [a PT] “pretende, com isso, estar a fugir ao pagamento de imposto que resultará” das novas regras que constam da proposta de Orçamento do Estado para 2011. Obviamente, o ministro está a comportar-se como se fosse o líder da bancada parlamentar do Bloco de Esquerda, recorrendo a um discurso fácil e que ‘passa bem’ na opinião pública quando são pedidos tantos e tantos esforços, é bom recordar, porque Teixeira dos Santos falhou nos seus objectivos. Percebia-se se fosse o líder do BE, não se percebe, nem se aceita, porque é ministro de um Governo que, hoje mais do que nunca, tem de mostrar ao mundo e aos investidores a credibilidade e a reputação das suas políticas económicas e financeiras. E não é seguramente com intervenções deste género que vai consegui-lo.

Teixeira dos Santos, o ministro, esqueceu-se de revelar que as novas regras para 2011 foram ‘descobertas’ precisamente para tentar arranjar mais uma receita extraordinária em cima da operação de venda da brasileira Vivo aos espanhóis da Telefónica para baixar o défice de 2011 para 4,6% do PIB, números redondos, mais 300 milhões de euros. Felizmente, como estamos num Estado de Direito, essas regras não podem ser retroactivas, por isso, só entrarão em vigor no dia 1 de Janeiro de 2011. O que deveria, então, ser feito, na lógica de Teixeira dos Santos: o conselho de administração da PT – nomeado por todos os accionistas, dos quais 70% estrangeiros – deveria suspender o pagamento de um dividendo extraordinário sobre uma operação extraordinária e pagá-lo apenas em Janeiro de 2011. Os donos da empresa – os accionistas – perderiam dinheiro, mas, para Teixeira dos Santos, o ministro, isso não é um problema. Nem sequer a responsabilidade fiduciária da administração da PT – e de qualquer empresa – de fazer os melhores negócios possíveis, cumprindo as leis de um País, obviamente.

Se o Estado, enquanto accionista, não concorda com esta distribuição extraordinária de dividendos, deve votar contra em assembleia-geral e logo se farão as contas sobre a vontade da maioria dos accionistas. Teixeira dos Santos sabe, obviamente, que não pode usar a golden-share para travar esta operação – como fez no passado recente -, por isso tenta a pressão moral. Inaceitável. Fica a pergunta, igualmente populista: o sr. Ministro vai suspender todas as suas compras este ano para pagar o IVA a 23% a partir de um de Janeiro?

O que seria da reputação de um País se um conselho de administração de uma empresa privada decidisse prejudicar os accionistas – os donos da empresa, é bom recordá-lo – para beneficiar as contas públicas e um Governo? 

publicado por concorrenciaperfeita às 23:33
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1 comentário:
De Tiago Freire a 5 de Novembro de 2010 às 08:52
"Teixeira dos Santos sabe, obviamente, que não pode usar a golden-share para travar esta operação – como fez no passado recente -, por isso tenta a pressão moral. Inaceitável." --- Porquê inaceitável? Utilizaria a mesma palavra para descrever os outros sacrifícios pedidos ao país? Aumento do IVA (imposto regressivo, com impacto maior nas pessoas mais pobres), feito debaixo da bandeira de sacrifício nacional para reduzir o défice?


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