Sábado, 6 de Novembro de 2010

FMI? Não, obrigado.

Portugal está, desde há meses, no radar dos investidores e dos mercados internacionais pelos piores motivos, vários, entre os quais o de que não estará à altura de cumprir as suas obrigações e compromissos financeiros. A consequência de um eventual incumprimento seria, obviamente, o recurso à ajuda externa, leia-se ao FMI, que alguns, incompreensivelmente, defendem. A entrada do FMI não só não é inevitável, como é, sobretudo, dispensável.

Quando se fala do FMI em Portugal, sobretudo para a geração com mais de 50 anos, fala-se das intervenções na década de 70 e de 80, da economista Teresa Terminasse, e de entradas ‘à bruta’ e num contexto bem diferente do que o que vivemos hoje, com uma moeda única e integrados num espaço político e sobretudo económico europeu. E são muitos os que defendem hoje a entrada do FMI mais por razões políticas – seria a forma de demitir José Sócrates – e menos por razões económicas.

Os instrumentos de intervenção do Fundo são hoje muito diferentes daqueles que foram usados há mais de duas décadas, desde logo a impossibilidade de desvalorizar o escudo. Mas o processo e os resultados não são muito diferentes, isto é, Portugal perderia a sua autonomia e independência, a que tem, e as medidas a tomar seriam, necessariamente, mais duras e gravosas do que as que constam da proposta de Orçamento do Estado para 2011.

O FMI já ‘entrou’ na Grécia. De que forma? O Governo grego recorreu ao fundo de emergência financeiro, criado e financiado pela União Europeia e pelo próprio Fundo, quando se viu incapaz de cumprir as suas obrigações com os que lhe emprestaram dinheiro. As medidas de austeridade foram postas em prática, o País perdeu a sua soberania, que não voltará tão cedo, vive uma situação de emergência e instabilidade social e, mesmo assim, os mercados continuam a desconfiar dos gregos. Seria este o cenário em Portugal. É isto que queremos? Seguramente, não.

A entrada do FMI em Portugal depende, em primeiro lugar, de nós. Os mercados e os investidores têm as suas dinâmicas próprias, como temos visto, por exemplo, com o contágio dos últimos dias do que se passa na Irlanda a Portugal, apesar da aprovação do Orçamento do Estado. Mas, seguramente, se não fizermos o nosso trabalho de casa, se não reequilibrarmos as contas públicas, o FMI tornar-se-á inevitável. Teixeira dos Santos cometeu um erro crasso ao fixar um número – taxa de juro da dívida pública portuguesa de 7% - a partir do qual Portugal terá de recorrer ao fundo. É um erro político que pode trazer uma factura demasiado elevada.

Depois, quem defende a entrada do FMI como forma de forçar uma mudança rápida de actores políticos – leia-se de primeiro-ministro – e de políticas, está a subestimar a perda de autonomia e de liberdade económica por muitos e muitos anos. A situação financeira e orçamental do País já nos obrigou a aceitar medidas que falam alemão, mas esta dependência passaria a subjugação. As medidas de política económica e orçamental deixariam de ser avaliadas pela sua qualidade e muito menos pelas opções políticas subjacentes, mas por uma agenda externa imposta à força. Porque quem paga, manda.

Finalmente, o recurso ao FMI seria a constatação da incapacidade de Portugal se governar, para lá do atestado de incompetência que passaríamos a nós próprios, enquanto povo e País.

Não diabolizo o FMI, é uma instituição central do sistema económico e financeiro internacional. Mas, FMI? Não, obrigado. 

publicado por concorrenciaperfeita às 10:19
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De Anónimio a 9 de Novembro de 2010 às 10:02
Concordo plenamente, salvo na parte em que se diz que seria um atestado ao povo, aos Portugueses.
Os Portugueses apenas têm culpa no que respeita à eleição deste e anterior governo, de resto, Portugal é um país, bastante, cumpridor, no que concerne ao pagamento de impostos, a má aplicação da receita proveniente dos mesmos, em nada se manifesta na esfera dos contribuintes.

De qualquer das maneiras, excelente artigo, de facto nunca me tinha ocorrido, aquando da reflexão acerca do FMI, olhar a perspectiva sócio-politica, geralmente tendia a, falaciosamente, economizar o problema.

Com os melhores cumprimentos,

Anónimo


Comentar post

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds