Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

O que querem?

 

No dia em que Portugal liquidou mais de cinco mil milhões de euros de dívida pública, a hipótese de segundo resgate está cada vez mais presente, uma contradição que é apenas aparente. Os investidores, os mercados, aqueles que tantos desdenham, em actos e omissões, desconfiam da capacidade do País de continuar o rumo que foi seguido, levaram um murro no estômago em Julho com a crise política, assustaram-se com as decisões do Tribunal Constitucional e só ouvem falar em pedidos de flexibilidade das metas de défice e de dívida. O que querem?

Se Portugal precisar de um novo apoio financeiro a partir de meados de 2014, é evidente que o Governo falhou. A avaliação política da acção de Pedro Passos Coelho, justa ou injustamente, vai medir-se pela conclusão do programa de ajustamento até Julho do próximo ano, e pela recuperação da independência financeira. Mesmo com a rede do BCE. Dito isto, Portugal não está pior hoje do que estava há três meses quando os juros da dívida pública a 10 anos estavam na casa dos 5%. Está, há cerca de duas semanas, acima dos 7% de forma consistente. Melhor, está pior num aspecto central: a confiança.

O Governo ainda pode escapar ao segundo resgate, mas já não depende apenas de si. Tem, seguramente, de fechar a oitava e nova avaliações com a 'troika' e tem de apresentar um Orçamento de Estado credível, seja com um défice de 4%, seja com 4,5%. O problema não é esse meio ponto percentual, é o que está por detrás desta discussão, indesejável neste momento. O problema é que o Governo, mas também o PS, no fundo o País, têm de garantir aos credores internacionais que o caminho vai manter-se, com maior ou menor ritmo. E sem matar a economia.

Ora, se não há ninguém no espaço público e publicado que defenda as vantagens e virtudes do segundo resgate, nem todos são coerentes entre as políticas que defendem e as que são necessárias para evitar a necessidade de Portugal recorrer a um novo financiamento de credores institucionais. Não é possível afirmar, em simultâneo, que o segundo resgate é um falhanço e recusar a austeridade, qualquer tipo de austeridade, como faz António José Seguro. O mesmo que assinou o tratado orçamental ao lado dos partidos que suportam o Governo, um tratado que obriga a reduzir o défice.

Um segundo resgate, a necessidade de mais dinheiro para o Estado assegurar os seus compromissos, corresponderá a mais medidas de austeridade ou, no limite, a uma reestruturação da dívida pública. Venha o diabo e escolha… se houver escolha.

A discussão em torno dos valores do défice público nos termos em que está a ser feita é absolutamente estéril, pior, é negativa para Portugal, porque acentua as desconfianças, afasta-nos da Irlanda, como se constata da evolução das 'yields' das obrigações dos dois países. Portugal está a perder esse comboio e, se quer recuperar um lugar na carruagem da frente, e fugir da Grécia, tem uma questão central a resolver, que, neste momento, é condição necessária mas poderá não ser suficiente. Só é possível reduzir a dívida pública de forma consistente se Portugal garantir saldos orçamentais primários positivos. Se reduzir a despesa para valores abaixo das receitas fiscais e não fiscais recorrentes. Ainda estamos longe disto. E, para quem não percebe isso, basta ler o Wall Street Journal para ficar esclarecido. Aliás, uma resposta a um artigo como o que foi ontem publicado exige, pelo menos, três road-shows nos mercados internacionais.

Sim é preciso que o Governo faça a sua parte, é urgente que Tribunal Constitucional ajude ou, pelo menos, não prejudique, mas também é preciso que o PS dispa a sua farda de oposição radical. Não precisa de fazer um acordo de regime, não precisa sequer de hipotecar a sua 'oposição', mas precisa de assumir-se como alternativa ao PSD e deixar de preocupar-se com o PCP e o Bloco de Esquerda.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds