Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Porque é que estamos hoje pior do que há uma semana

 

Se Portugal já estava no fio da navalha desde a crise política em Julho, por causa da desconfiança dos investidores em relação à estabilidade da governação, os resultados das eleições autárquicas acrescentam muitas dúvidas à capacidade política do Governo de fechar a oitava e nona avaliações da 'troika' e de apresentar um Orçamento do Estado alinhado com os compromissos do programa de ajustamento. É por isso que Maria Luís Albuquerque prefere poupar já a remediar dentro de alguns meses.

Verdadeiramente, hoje, ninguém consegue antecipar se Portugal precisará ou não de um segundo resgate, leia-se, se precisará de mais dinheiro para financiar os compromissos do Estado e o próprio défice público a partir de meados de 2014. Já estivemos mais longe, depois das autárquicas estamos mais perto. Porque o País está mais dividido, e também mais radicalizado. E o Governo muito fragilizado.

A 'troika' já esperava uma derrota do Governo nestas eleições intercalares. Faz parte. O primeiro-ministro também. Mas nenhum esperaria o perfil da derrota que acabou por suceder, a confusão política do País que ainda está a ser digerida, entre um CDS que reclama uma vitória contra o parceiro de coligação, um PS que não quer a austeridade, um PCP que não quer austeridade nem sequer a 'troika' e independentes que não se sabe bem o que querem do ponto de vista da política nacional.

É neste quadro que as desconfianças em relação à capacidade do Governo se avolumam. Como acaba por confessar, implicitamente, a própria ministra das Finanças quando tem de explicar porque é que a dívida pública terminará nos 127,8%, claramente acima dos valores acordados com a 'troika' na sétima avaliação, que era de pouco mais de 122%. Este é o indicador chave para se perceber se Portugal escapará a um segundo resgate.  É este o número mágico para onde olham os investidores internacionais, aqueles que é necessário convencer.

Maria Luís Albuquerque poderia ficar em silêncio, mas o risco de impacto internacional de um número como este, que põe em causa a sustentabilidade financeira do Estado, e o próprio ajustamento, era superior às consequências políticas das explicações. A ministra das Finanças admite dificuldades de acesso a financiamento em 2014, mais do que aquelas que já eram previsíveis. O Governo já tinha assegurado o financiamento do Estado anos primeiros meses do próximo ano, mas para isso é fundamental um acordo com a 'troika' nas próximas semanas e a garantia de um cheque superior a cinco mil milhões de euros. A ministra das Finanças prefere jogar pelo seguro e ficar com o dinheiro em caixa, não vá o diabo tecê-las.

O resultado destas autárquicas, se alguma consequência tem é a de cristalizar a posição de força da 'troika', é a de contribuir para a inflexibilidade negocial dos credores em relação aos objectivos de redução do défice público e da dívida. Os resultados não foram clarificadores, foram uma derrota do PSD, uma derrota ainda maior do Bloco de Esquerda, e uma vitória do PS, da CDU e até do CDS, por esta ordem.

É isto, este quadro, que torna impossível uma previsão de estabilidade política até ao final do ano, o 'timing' em que tudo se vai decidir, o regresso a 2011.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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