Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013

Machete é um equívoco

 

A crise política de Julho trouxe uma remodelação forçada, trouxe uma espécie de novo Governo, uma nova relação de força e de poder entre Pedro Passos Coelho e Paulo Portas e um novo ministro dos Negócios Estrangeiros com experiência política e de vida, que já tinha passado por uma coligação e com cabelos brancos. Mas o primeiro-ministro que se orgulhava de ter sido o protagonista da chegada ao poder de uma nova geração já sabe que o tempo não anda para trás.

A função de ministro dos Negócios Estrangeiros com Paulo Portas tinha uma dimensão política relevante na orgânica do Governo, porque Portas é o líder do CDS, porque 'agarrou' competências que estão, regra geral, na Economia. Os Negócios Estrangeiros foram mesmo, por uma vez, os negócios do Estado no estrangeiro, e não 'apenas' as relações políticas exteriores. Portas percebeu também, que, no novo quadro do Tratado de Lisboa, os ministros dos Estrangeiros deixaram de contar, foram engolidos na política externa que conta, a económica e financeira, pelos ministros das Finanças.

O 'novo' Governo foi, neste aspecto, um regresso ao passado, ao modelo ultrapassado, conservador, quase irrelevante de Negócios Estrangeiros. Voltamos à diplomacia do 'croquete', por isso a escolha de Rui Machete parecia a adequada. Um homem experiente, que serviria sobretudo, para garantir uma estabilidade política interna, um cimento de uma coligação que estava periclitante. Os últimos dois meses foram exactamente o oposto, Rui Machete foi, ele próprio, um foco de instabilidade governativa e de distracção política, com omissões, incorrecções factuais e, agora, mentiras diplomáticas.

A entrevista de Machete a uma rádio angolana não foi apenas um conjunto de expressões infelizes, antes fosse. O ministro com experiência política e de vida, que se esqueceu da sua vida no BPN e dos negócios que fez, arriscou a credibilidade de uma recém-chegada procuradora geral da República, a independência de um sistema judicial em relação ao poder político, para ficar bem na fotografia com o poder em Angola. Que, agora, também sabe que foi enganado. Todos perderam.

Ainda por cima, as relações com Angola pareciam dar os primeiros sinais de recuperação, como se percebeu, por exemplo, do encontro de José Eduardo dos Santos com Ricardo Salgado, que, não por acaso, foi ma(n)chete do Jornal de Angola. Isto depois de ser conhecida e assumida oficialmente a guerra entre o presidente do BES e Álvaro Sobrinho, antigo presidente do BES em Angola, hoje maior accionista do Banco Valor e dono dos jornais i e Sol em Portugal.

A iniciativa política de Machete ameaça pôr tudo em causa, em Luanda e em Lisboa. Também porque as próximas decisões de Joana Marques Vidal e da PGR sobre os processos que, segundo se sabe, estão sob investigação e envolvem altas figuras de Angola vão ser mais escrutinadas do que nunca.

Pedro Passos Coelho não vai demitir Rui Machete, pelo menos agora, tem outros problemas, mais graves, e outras prioridades, mas sabe melhor do que ninguém que Machete foi, é, um equívoco. Que vai ter de desfazer, mais cedo ou mais tarde.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:20
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