Terça-feira, 8 de Outubro de 2013

Estado vai continuar a entregar cartas

 

O Governo decidiu copiar os ingleses e vender os CTT através de uma operação de dispersão em bolsa de pelo menos 50% do capital, contra o que parecia certo, isto é, a negociação directa com investidores mais ou menos estratégicos, que, diga-se, fizeram fila para levantar o caderno de encargos. O que nos diz esta decisão?

Os CTT são, como a CGD, a RTP ou a TAP, uma empresa de bandeira, com a qual os portugueses têm uma relação de afectividade. É sobretudo por isso que a privatização dos CTT gera tanto ruído, não é por causa da prestação do serviço postal universal, a entrega de uma carta em qualquer parte do País num período de tempo razoável, que pode ser assegurado por uma empresa pública ou privada.

O Governo faz bem em avançar com a privatização dos CTT, por razões ideológicas e financeiras. Se as de carácter ideológico são evidentes - este Governo entende que o Estado não deve ser accionista de empresas, deve ser regulador do mercado - já as de ordem financeira merecem uma análise mais fina, à luz do modelo de privatização que foi oficiosamente anunciado. O valor global dos CTT andará em torno dos 600 milhões de euros.

À partida, a venda de uma empresa pública por negociação directa com uma 'short-list' de candidatos teria tudo para assegurar o que o Governo e o País precisam, o maior encaixe financeiro para o Estado e para a redução da dívida pública. Por isso, a decisão de fazer uma dispersão em bolsa revela desde logo que o Governo não acredita na fiabilidade, financeira e estratégica, dos grupos que levantaram o caderno de encargos. E foram muitos: Paulo Fernandes, que tem a Altri e a Cofina, a Urbanos em consórcio com um fundo árabe, o grupo Rangel com o Montepio, os Correios do Brasil e provavelmente os Correos de Espanha, entre outros. Qualquer um deles levou um 'murro no estômago' e perdeu o interesse nos CTT, porque uma dispersão em bolsa afasta este tipo de investidores.

O Governo, portanto, não quer investidores estratégicos ou, no mínimo, estes que se apresentaram a concurso. Prefere seguir o modelo de dispersão em bolsa, com toda a certeza, porque acredita que tem uma maior probabilidade de receita orçamental. Como não há memória de operações de dispersão em bolsa de 100% do capital, o Estado vai continuar por mais algum tempo como accionista dos CTT.

A dispersão de capital em bolsa tem um mérito evidente, o de permitir a entrada de mais uma empresa na Euronext Lisboa, coisa que não sucede desde 2008. E como o mercado português precisa de empresas na bolsa, porque, às tantas, desaparece.

Mas existe um risco, claro. Os belgas privatizaram parte da sua empresa de correios, os resultados da venda da maioria do capital dos correios ingleses são conhecidos hoje, é necessário que o mercado, os investidores institucionais, continuem 'virados' para este sector. Sim, os CTT libertam muito 'cash' e têm um 'dividend yield' elevado, factores de atracção para os investidores institucionais. Ainda assim, se o mercado perder o 'apetite' pelos Correios, o Governo terá afastado os investidores estratégicos sem a maximização do encaixe financeiro.

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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