Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

Choque de expectativas ou de realidade (II)

"O que nasce torto tarde ou nunca se endireita", diz o ditado popular, e isso é o mínimo que se pode dizer da trapalhada em que o Governo se meteu por causa dos cortes nas pensões de sobrevivência e da introdução da condição de recurso, tudo por causa de 100 milhões de euros num corte total de mais de três mil milhões de euros de despesa no Orçamento do Estado para 2014.

Tudo começou com a conferência de Imprensa de apresentação dos resultados da oitava e nona avaliações da ‘troika'. Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque e Carlos Moedas fizeram-nos lembrar o que já tínhamos quase esquecido, uma histórica conferência de Imprensa de José Sócrates em Maio de 2011 depois de negociar o acordo com a ‘troika', em que disse tudo o que não estaria no memorando de entendimento, mas esqueceu-se de revelar os sacrifícios a que os portugueses seriam expostos.

O pecado original foi esse, e que o Governo ainda não percebeu em toda a sua extensão. Caso contrário, não teria desvalorizado a necessidade de explicar, por A+B, uma medida que tem um impacto limitado do ponto de vista orçamental, mas tem um efeito directo na vida de milhares de pensionistas e, sobretudo, um impacto mediático que contamina tudo o resto, como uma bomba de napalm.

Em primeiro lugar, esta é uma daquelas medidas que tem tudo para minar a própria coligação, como se percebeu do debate parlamentar de ontem, em que apenas os deputados do CDS deram a cara pela medida, mesmo não a conhecendo. Paulo Portas, é bom recordar, traçou uma linha vermelha, uma fronteira na questão da chamada TSU dos pensionistas e, por isso, tem agora tanta dificuldade em explicar esta medida. É o peso na consciência, porque ainda não foi capaz de dizer, por exemplo, que o princípio da condição de recurso foi introduzido nas prestações sociais por um Governo socialista, o mesmo a que pertenceu Vieira da Silva, ontem tão agressivo contra a falta de moral do Governo.

Depois, o Governo comete outro erro, talvez ainda mais grave. A partir do momento em que a TSF revela o teor da medida, no passado fim-de-semana, o Governo não poderia deixar as centenas de milhar de pensionistas no escuro, na dúvida e na incerteza totais, sem saberem se serão ou não afectados por esta condição de recurso. E esta desconfiança alastrou-se, nos últimos dias, a todos os cidadãos, legitimamente. Afinal, o que é que falta saber?

A menos de uma semana da apresentação do Orçamento do próximo ano, um Orçamento que seria o primeiro do novo ciclo político e económico deste Governo, regressámos ao passado recente. À austeridade, que seria sempre necessária, mas sem um vislumbre de crescimento. E mesmo que venha a existir alguma medida, estará à partida condenada a não ‘passar' por causa destes últimos dias.

É aqui, também, que se jogam as expectativas que tanto preocupam o primeiro-ministro e de facto ameaçam a recuperação, ainda ténue, da economia.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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