Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

Há menos na Caixa do que você imagina

 

 

A CGD decidiu sair do capital da PT, onde tinha ainda 6% das acções, uma decisão pré-anunciada há pelo menos dois anos, por obrigação e por dever, por imposição da Concorrência europeia e porque um banco, especialmente um público, existe para financiar as empresas e não para ser o seu dono. Mas a gestão da CGD dificilmente poderia ter escolhido um momento pior. Há menos na Caixa do que você imagina.

As participações dos bancos nas grandes empresas - indesejáveis a prazo, porque criam problemas, conflitos de interesse e até promiscuidade - têm uma explicação histórica. Não havia empresários em dimensão e quantidade suficiente para fazer crescer uma economia nacionalizada na ressaca do PREC. Os bancos serviram o País, mas também beneficiaram, quando entraram no capital de empresas como a PT, EDP e Galp e tantas outras.

No caso particular da Caixa, foi o braço financeiro do Estado, muitas vezes por más razões. Por isso, na sequência do pedido de ajuda à 'troika' e, sobretudo, depois da injecção de capital do Estado na CGD, a equipa de José de Matos estava obrigada a desfazer-se de participações em empresas como o BCP, Zon, Cimpor e PT. Era uma necessidade, mas este processo começou mal e acabou, talvez, pior, com consequências para a actividade 'core' do próprio banco.

A Cimpor é um caso para esquecer. Na Zon, vendeu o controlo a Isabel dos Santos, agora, na PT, sai a meio de um processo de fusão com a Oi, que tem, como accionistas, entidades públicas brasileiras.

Esta decisão tem impactos negligenciáveis pelo momento escolhido e motivações difíceis de perceber. Que sinal é este? O Governo está com problemas em Angola, mas não quer ter o Brasil como parceiro estratégico. Não basta parecer, é preciso ser, e se o banco público sai de uma operação a meio, as leituras políticas são óbvias. Mas não só: a CGD tem uma operação que diz querer aumentar no Brasil, mas abandona a meio uma operação que lhe daria peso institucional nesse mercado. Será a necessidade de mais-valias no curto prazo e os testes de stress? Tinha, para isso, outras alternativas. Finalmente, a CGD fragiliza a própria operação de fusão e o núcleo de accionistas portugueses da nova empresa - um dos quais, a Ongoing, que é dona do Diário Económico. Porquê? No mínimo, depreende-se que não acredita na valorização das acções da nova empresa que resultará da fusão, senão esperaria mais uns meses. E poderia esperar.

Sobra uma explicação, talvez a mais simples, mas também a mais reveladora até da desorientação do Estado enquanto accionista e dos seus interesses estratégicos. À CGD só interessava cumprir mais um item na caixa de objectivos, uma cruz numa tabela de metas. José de Matos concluiu, com esta venda, um processo de saída do capital de empresas não-core, cumpriu um objectivo que lhe foi cometido pelo próprio accionista Estado, leia-se o Governo. É um dia histórico, mas não merece garrafas de champanhe.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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