Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Os três vão acabar juntos

 

As discussões políticas em Portugal parecem ter regressado a Maio de 2011 e ao pedido de ajuda externa feito, então, pelo Governo socialista. Não deixa de ser irónico o debate em torno de uma grande coligação quando o País está a chegar ao fim do programa de ajustamento, ou nem por isso. Este debate - que a realidade vai tornar tão inevitável como o acordo com a 'troika' - é também a evidência do que ficou por fazer ou, simplesmente, foi mal feito por este Governo.

O acesso a um programa cautelar - coisa bem diferente da necessidade de um segundo resgate - é o melhor que nos pode suceder. A ideia de que Portugal poderia aspirar a passar do inferno para o céu, sem passar pelo purgatório, era improvável, apesar do discurso optimista de Vítor Gaspar e Passos Coelho. E cedo se percebeu que isso não seria possível, quando até a Irlanda, que tem indicadores claramente mais positivos do que os portugueses, como as 'yields' da dívida pública, está em negociações com a 'troika' para o programa cautelar. Qual é, então, o problema? Não, não é o regresso de José Sócrates, nem o convite que terá feito a Pedro Passos Coelho para integrar o Governo. Deveríamos ter seguido, então, o modelo irlandês, não o fizemos. O que está em causa, agora, é a necessidade de um acordo político com o PS para passarmos à fase seguinte, ao cautelar.

É por causa da necessidade de uma grande coligação que António Pires de Lima foi chamado à pedra, e contrariado de forma ostensiva por um colega de Governo. Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro sabem-no, a 'troika' vai exigir mais condições, um eufemismo para novas medidas de austeridade que garantam a existência de saldos orçamentais primários, isto é, sem juros, excedentários. E não haverá condições sociais e políticas para tal sem uma grande coligação. Confesso, já fui adversário de blocos centrais, que têm o risco de anular a política, mas hoje, com as restrições financeiras que o País vive, não vejo alternativa realista. Se até a Alemanha vai ser governada por uma grande coligação…

É evidente, uma grande coligação vai exigir eleições. António José Seguro fez um discurso muito importante na passada semana, na conferência do Económico e da Antena 1. E não teve a atenção que merecia, talvez porque, nessa intervenção, o líder do PS não cedeu à retórica política que tem marcado, em tantas ocasiões, os seus discursos. Entreabriu uma porta, falta o resto. Que Passos Coelho vai tentar adiar o mais possível.

A dívida pública portuguesa não é sustentável, vamos acabar a negociar um qualquer modelo de reestruturação, sem este nome, claro. E não poderemos fazê-lo de forma isolada, seria um suicídio colectivo. Vamos fazê-lo mais tarde. Mas, no entretanto, é preciso dar passos, é preciso aguentar. Os enormes aumentos de impostos de 2013 sufocaram uma economia privada que já estava no limite das suas forças, já tinha feito um ajustamento à custa de uma recessão, e o défice resistiu. Entre os enormes aumentos de impostos e os enormes cortes de despesa, sobra uma sustentabilidade social difícil de manter, ainda mais do que a dívida pública que continua a subir.

Vamos voltar a 2011, os papéis inverteram-se, agora o Governo é do PSD/CDS e PS está do outro lado. Vão acabar os três juntos.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:10
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