Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

O caso BCP serviu para quê?

 

Há alguns anos, o BCP foi estilhaçado por uma guerra que envolveu o seu fundador, Jardim Goncalves, o seu sucessor, Paulo Teixeira Pinto e os accionistas mais relevantes. A história é conhecida, os danos e as consequências também, que o diga o actual presidente, Nuno Amado. Terá servido para alguma coisa, tendo em conta o que se passa hoje na família Espírito Santo?

Ricardo Salgado deixou de ser um 'intocável', isso ficou claro há meses, quando Álvaro Sobrinho assumiu um confronto público com o presidente do BES, com repercussões em Lisboa e em Luanda. Depois, foram as visitas ao DIAP para explicar operações financeiras e o conflito com Pedro Queiroz Pereira. Salgado mostrou ter ainda várias vidas para gastar, tentou resolver um caso de cada vez e, aparentemente, até estava a consegui-lo. Sobrava, provavelmente, o mais difícil dos problemas, a contestação interna protagonizada por José Maria Ricciardi, o primo que nunca escondeu as suas ambições.

Este processo é ainda mais difícil do que o se passou no BCP por duas razões, qual delas a mais importante. Por um lado, a situação económico-financeira do País e dos bancos é hoje muito mais complexa, as necessidades de capital dos bancos e, também, do BES, vão voltar a colocar-se. Depois, estes conflitos são sempre mais difíceis quando envolvem famílias, regra geral conseguem ser geridos na discrição dos conselhos familiares durante muito tempo, mas, quando se tornam públicos, são ingeríveis e têm consequências imprevisíveis.

É, por estas razões, que a crise do GES só tem riscos, não tem vantagens, não só para o banco, mas para o sistema financeiro e para o País. José Maria Ricciardi foi consequente com o que pensa e o que diz em privado, assumiu as consequências da sua posição, e acelerou o calendário. Por uma razão, que o próprio percebeu. A sucessão não começa agora, já começou, informalmente, e Salgado não tem Ricciardi na sua 'short-list'. Fica, agora, numa situação insustentável, porque o Conselho Superior da família deu o seu apoio inequívoco a Ricardo Salgado. E o tempo que o próprio precisa para assegurar uma sucessão nos seus termos e condições. Mesmo com a exigência de que o processo de sucessão deve iniciar-se formalmente, a família não quis arriscar o que seria uma inevitabilidade, isto é, a demissão imediata do presidente do BES.

A família deveria impôr um entendimento mínimo pelo menos até ao fim deste mandato entre Salgado e Ricciardi, uma convivência de conveniência, mas o comunicado que Ricciardi emitiu no sábado aponta no sentido inverso. Não só não se demite, como se assume como candidato à sucessão. Paradoxalmente, está provavelmente a traçar o seu destino no grupo, e a abrir a porta a terceiras vias, e a contribuir para o que não se vê desde a fundação do grupo, excepção feita ao período da nacionalização: a nomeação de um presidente executivo fora do universo familiar, uma coisa impensável ainda há um ano.

Se alguma lição ficou do caso BCP foi o tempo, a perda de tempo, e de valor, por causa de uma guerra que se prolongou por um período impensável. Ricardo Salgado, um jogador de xadrez, jogou tudo, e ganhou... a primeira batalha, porque a guerra, essa, vai permanecer enquanto não houver uma clarificação definitiva da situação interna do grupo para o futuro próximo, para o pós-Salgado. Sabe-se quem manda hoje, não se sabe ainda quem mandará amanhã, mas isso tem de ficar claro nos próximos dias.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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