Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

Um novo contrato social

Portugal vai parar depois de amanhã, dia 24, na greve geral convocada pela CGTP e ‘seguida’ pela UGT. As duas centrais sindicais encontraram na crise e nas medidas de austeridade mais graves da história recente do País o que faltava para estarem unidas e mobilizarem os trabalhadores. A greve, um direito que assiste, obviamente, a todos os que trabalham, vai ser um sucesso. A questão que se coloca é outra: no dia seguinte, alguma coisa muda? E o quê?

A greve geral tem razões que qualquer um, com bom-senso, reconhece válidas, para lá dos argumentos panfletários e de puro combate partidário. Basta, assim, ler o manifesto da CGTP para nos revermos em alguns dos motivos que levam a esta paralisação. O combate ao desemprego, a necessidade de crescimento económico, o combate à pobreza e à exclusão, são razões que devem preocupar todos, os trabalhadores, os empresários, os gestores, os decisores políticos. O problema, que os sindicatos portugueses continuam a avaliar mal, é como se sai daqui.

Em Portugal, e na Europa, o contrato social que sustentou os últimos 30 anos mudou, mas a tradição manteve-se a que era. Este contrato social – fundado no pós-guerra – definiu um modelo económico e social que, grosso modo, definiu que uma parte da sociedade, a maior, criava riqueza para distribuir, através do Estado, para a outra parte, a mais frágil e desfavorecida. A demografia, a incapacidade de criarmos mais riqueza, um Estado cada vez mais gordo e o aumento crescente dos que beneficiam dos apoios públicos, directa e indirectamente, resultou no que estamos a viver hoje. O bolo que há para distribuir é pouco maior, mas o Estado e os que comem à sua mesa são cada vez mais, por isso, dá cada vez menos a cada um. O Estado está a pedir cada vez mais dinheiro aos que (ainda) criam riqueza, atrofiando a sua capacidade presente e sobretudo a sua capacidade futura. Dito de outra forma, somos uma sociedade sem futuro, a não ser que todos percebamos que é necessário mudar este contrato social.

Em entrevista ao Diário Económico de hoje, o presidente dos sindicalistas europeus, John Monks, admite corte de salários e uma compensação por formação ou outros mecanismos. Para um objectivo maior, o de manter o emprego. É uma proposta inovadora, tendo em conta o que se ouve em Portugal, os discursos de que é possível manter tudo como está, se não fossem uns ‘malandros’ que atacam os direitos dos trabalhadores. Há maus gestores e empresários, como há maus trabalhadores e maus políticos. E são esses que estão a mais.

No dia seguinte, 25 de Novembro, nada vai mudar. A pressão política sobre o Governo de José Sócrates vai aumentar, a pressão externa sobre Portugal vai aumentar, mas o contrato social que nos conduziu até aqui vai manter-se. Até quando? n

 

PS: Quando a PT anunciou o pagamento extraordinário de dividendos, por força de uma operação extraordinária, houve quem viesse criticar os ricos e mal-agradecidos, sem conseguir disfarçar como vê a PT e os seus accionistas – um dos quais, a Ongoing, dona do Diário Económico. O Governo criou, no Orçamento do Estado para 2011, uma lei a pensar na PT e nos seus accionistas, para encaixar uma receita extraordinária de 260 milhões. Obviamente, a PT e os seus accionistas, os donos da empresa, actuaram de forma racional, como qualquer cidadão que antecipa as suas compras em 2010 antes que o IVA passe a 23%.

Será que as críticas a Ricardo Salgado e Henrique Granadeiro por causa de uma decisão racional são as mesmas quando quem a toma é Alexandre Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, e Pedro Queiroz Pereira, da Portucel. E veremos, nas próximas semanas, outros grandes empresários portugueses a seguir o mesmo caminho, em resposta a uma lei, a ‘Lei PT’, de Portugal Telecom, que acaba por ser uma ’Lei anti-PT’, de Portugal.

publicado por concorrenciaperfeita às 00:30
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