Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

Um (novo) choque de expectativas

 

As reacções do Governo português à decisão da Irlanda de não assinar um programa cautelar com a 'troika' deixam perceber como foi apanhado de surpresa e como perderam a sua referência de negociação. Sob pressão, a resposta, essa, está a criar uma expectativa que poderá transformar-se num problema, mais um, para o Governo e para o País.

Ainda há semanas, os portugueses discutiam a possibilidade de Portugal cair no segundo resgate. E um dos promotores dessa discussão foi, precisamente, o primeiro-ministro, talvez motivado pela necessidade de dramatizar uma situação política antes das eleições autárquicas. Já aqui o escrevi mais do que uma vez, o acesso a um programa cautelar é o melhor que nos pode suceder, por todas as razões e mais alguma, é a alternativa viável menos más. Agora, é também o Governo a criar a ideia de que, afinal, até poderemos escapar ao programa cautelar.

A proposta é bondosa, mas irrealista, à luz da informação que está hoje disponível. As 'yields' das obrigações do tesouro da Irlanda estão na casa dos 3,5% no mercado secundário, um valor claramente inferior às de Portugal, que continuam a tocar nos 6%. E, como diz, e bem o presidente do Santander, Vieira Monteiro, na entrevista que publicamos nesta edição, o que nos separa, o que explica esta diferença de juros, é um mar de confiança. A confiança que têm no Governo irlandês e nas instituições daquele país e a desconfiança em relação a Portugal e ao seu Governo.

O primeiro-ministro está, agora, a dar um salto que pode revelar-se demasiado ambicioso. Agora, o discurso oficial é que poderemos recuperar o contacto com a Irlanda, isto é, que também poderemos vir a dispensar o acordo com a 'troika' para um programa cautelar. Basta ler com atenção o relatório do FMI sobre a oitava e nona avaliações para perceber como estamos longe dessa realidade. E como, provavelmente, a segurança de um cautelar, leia-se um seguro do BCE, é preciso para regressarmos ao mercado de forma normalizada. A gestão das expectativas tem de ser feita, ou, então, vamos outra vez ouvir Passos Coelho a falar no choque de expectativas.

 

 

PS: A imagem de um comerciante venezuelano desesperado porque o presidente Nicolas Maduro decidiu fixar administrativamente os preços ao consumidor, mais ainda, definir os lucros de uma economia, vale mais do que mil palavras sobre uma política económica populista e demagógica que só pode ter um fim penoso. E serve também de aviso aos que consideram que o Governo, o português, deve repetir modelos de inspiração 'madurista' para responder às consequências de um programa de ajustamento que seria, sempre, muito difícil.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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