Sábado, 22 de Março de 2014

Porque é que Cravinho assinou o manifesto

 

 

João Cravinho, um dos três mentores do manifesto da reestruturação da dívida pública juntamente com Bagão Félix e Francisco Louçã, foi também um dos pais das Parcerias Público-Privadas (PPP) e, passados estes anos, tenta expiar a sua responsabilidade com um argumento quase pueril: "abri concurso de sete, concluí, assinei e negociei uma até ao fim. Uma!", diz, em entrevista à TSF e DN. Foi apenas uma, mas foi a suficiente para trazer até aqui.

As PPP são um dos atalhos que os sucessivos governos escolheram para fazer obra com o dinheiro das gerações seguintes, em bom português, para fazer sem pagar. Com vários problemas, o primeiro dos quais, diga-se de passagem, nem sequer foi o volume. As PPP podem, em determinadas circunstâncias, ser o melhor instrumento para o Estado provisionar a prestação de bens à população, mas o primeiro dos pecados, já hoje documentado, foi precisamente o da sua concepção.

Ao contrário do que afirma Cravinho, o primeiro dos buracos das PPP resulta do facto de o Governo pagar a obra - seja nas estradas, seja nos hospitais -, externalizar os lucros e manter os riscos que, quando se verificam, transformam-se em prejuízos para o próprio Estado. O problema, eng. Cravinho, não foi o acompanhamento e a execução, foi mesmo a concepção dos contratos, e os sucessivos governos, por acto ou omissão, não estavam preparados, tecnicamente, para os assinarem.

A responsabilidade não é apenas de João Cravinho, fizeram-se muitas PPP que não deveriam ter passado do papel, desde então até ao Governo de José Sócrates, PPP, aliás, que custam em 2014 mais 700 milhões de euros. O País não foi à ruína por causa do contrato assinado na segunda metade da década de 90 por Cravinho, mas foi o modelo que deixou que nos trouxe até aqui. É por isso que deveria assumir a responsabilidade do erro, não a sua auto-justificação.

Cravinho não se dá conta que o seu próprio testemunho é a confissão de uma estratégia que está errada há muitos anos, é a evidência do que não deveria ter sido feito. "A gente de Castelo Branco não merecia ter uma auto-estrada?", pergunta. Merecia isso e muito mais, e a 'gente' do resto do País também merecia ter outra vida, mas o problema é que não produzimos o suficiente para tantas auto-estradas e tantos outros projectos que foram feitos com recurso a impostos futuros, que pagamos agora com austeridade. E poderíamos aproximar concelhos, até unir o País, sem o levar à pré-falência.

Pedir uma reestruturação da dívida pública depois desta estratégia não surpreende, é apenas uma triste ironia, a de que Cravinho, como outros, ainda não percebeu porque é que o País está como está.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:38
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